Qual é a língua que Deus fala?

Ontem eu abri minha caixa de fotografias.
Eu sei… hoje em dia com câmeras digitais não existem mais caixas de fotografias.
Mas eu ainda tenho uma mala e estava esquecida no fundo de um armário.
Minha vida e a da minha família.
Esquecida, lá no fundo do meu armário.
Encontrei uma desculpa qualquer e abri. Não sei porque mas não gosto muito de rever fotos antigas…
Lá dentro no mínimo meus últimos 12 anos de existência. Tudo de mim estava lá. Conquistas, casas, viagens, eu gorda, eu magra, eu de cabelo liso e longo, curto e crespo, mau vestida, um arraso, em fantasia de super mulher. Fazendo poses, dormindo, acordando.

Todas Eu estavam lá. Menos Eu.

Eu não estava em nenhuma foto. De fato. Seguro uma foto da primeira viagem romântica. Eu não estava lá.
Fotos dos amigos se casando, minha imagem está na cena, mas eu não.

Onde estive estes anos todos que não abria os olhos e enxergava?

Por que eu não me lembro daquela cozinha e em que momento eu estava vivendo?
Tudo na foto parece tão feliz e de acordo, menos eu.

Entorpecida pelo massacre do cotidiano me deixava fotografar e fotografava sem nenhum sentido de plenitude que agora sinto.

Desconectada, desatenta, iludida, preocupada, infeliz, vivendo na escuridão do dia a dia, eu era o próprio torpor. Um sentimento de estupefação me ocorre.
A vida passou na janela e se nem Carolina viu. imagina eu.
Não vi. Nao prestei atenção. Não estava acordada.

Onde estava?

Lutando com toda a minha energia para o quê mesmo? Realizando sonhos do quê mesmo? O que que eu me preocupava tanto mesmo? Não me lembro. E uma máquina fotografava eu sem mim. Registrava minhas cenas sem a minha presença….

Parece papo de maluco. E é. Precisamente um surto. Um longo e profundo surto de existência. Desses que as pessoas dizem: Nossa como a vida é curta. E é.

Um diagnóstico preciso foi feito pelo PHd Físico Quântico, monge budista Alan Wallace em sua palestra Ciência da Felicidade:

“Mente desequilibrada gera insatisfação e desconforto”.

Era assim que eu vivia. Ora insatisfeita, ora desconfortável. E nunca genuinamente feliz, vivendo dentro da minha verdade, produzindo virtudes. Isto não tem a ver com você?
Tudo bem, pode me deixar sozinha nesta. Amit Goswami já dizia que o caminho começa quando você percebe que é ou tem sido infeliz. E isto não é pouco. Todo o hedonismo existe para tirar você de você mesmo. A alta audiência dos programas trash de tv provam que estou certa.

E Alan Wallace continua: o estado base da consciência é bem aventurança, luminosidade, serenidade inatas – uma nascente transbordante de sabedoria compaixão e criatividade.

O meu estado base da minha consciência é meio capenga, para não dizer inexistente.

E o físico me instiga:
- Como seria a realidade se você fosse Deus?
- Ou como adquirir os olhos de Deus para enxergar as coisas como elas verdadeira são?

Ele sugere:
Para conhecer a mente do criador, examine sua criação.

Mas como avaliar a criação se tudo que carrego comigo é esse surto xinfrim psicótico, puxado pra normose, pateticamente orientado para as preocupações e pros medos da vida?

Como ter os olhos de Deus, se eu nem me atento para o meu próprio olhar?
Eu tenho cinco sentidos, visão, é um deles.
Mas e as minhas emoções? Qual destes sentidos é o responsável pelas minhas percepções, meus sonhos, minhas alegrias, minha felicidade?
Como entender a realidade das coisas, se meus cinco sentidos só entende o que vê, cheira, pega, ouve e come? E os meus insights, que as vezes ocorrem até quando eu estou quase dormindo?

E o Alan Wallace tenta explicar:
Existe um sexto sentido, chamado Noetos. É uma faculdade cognitiva que apreende diretamente os fenômenos não sensoriais e revela seus sentidos inteligívies.
Hã?
O que nós absorvemos não é a natureza em si, mas um entendimento a partir da nossa própria experiência, Mas e se eu tiver vivendo um surto longo, que entendimento eu terei? Que clareza e lucidez eu posso me relacionar com tudo, e ainda afirmar para uma outra pessoa que o que ela reconhece como realidade não existe?

Como sair deste surto e acordar para as coisas como elas realmente são?

Como entender a mente de um criador se eu só consigo criar mais ilusão?
Einstein já dizia que há duas coisas infinitas: O espaço, e a nossa capacidade de se auto-iludir. E ele nem tinha certeza se de fato o espaço é realmente infinito.

Nossos inimigos estão dentro de nós.
São os nosso desequilíbrios afetivos. E eles produzem aflições mentais como indiferença, depressão, apego. Vivemos nas mãos destes inimigos. E aniquilamos os mensageiros destes desequilíbrios, tomando remédios, comendo exageradamente, injetando drogas, enchendo a cara, fumando, transando como loucos, matando, roubando, destruindo, mau tratando as criancinhas e os velhos ou simplesmente não existindo.

Dentro deste arsenal bélico, existe um lugar seguro? Existe um refúgio?

NICOLAS DE CUSA, um cardeal polonês, teólogo, tenta dar umas pistas:
Meditação Contemplativa.
Ao transcender todos os conceitos através da prática contemplativa, podemos atingir a visão absoluta, fonte de todas as visões daqueles que vêem. Excede toda a nitidez, toda a rapidez e todo o poder de todos que vêem e de todos que podem chegar a ver.
Somente atraves da contemplação, você poderá ter a visão de Deus. E ela virá. E com ela toda a serenidade que desconhecemos, toda a compaixão e criatividade que não encontra espaço para existir por absoluta falta de consciência.

GAUTAMA aprimorou a atenção voluntária contínua, com estabilidade e claridade aperfeiçoadas e a utilizou de formas sem precedentes para explorar estados de consciência e seus objetos.
A mente que tem sua base no equilíbrio, conhece a realidade como ela é e combate a aparência ilusória e subjetiva das coisas.

Mas o que é ter atenção plena?
Eu conheço um coelhinho que enquanto come as graminhas fica totalmente atento ao fato que pode se tornar o almoço da raposa. É desta atenção que estamos falando?
Não.
Estamos falando de uma atenção amorosa, não violenta e com compaixão. Em ética, saúde mental, discernimento. Em melhorar nossos processos internos e reconstruir nosso mundo interior. Intuitivamente sabemos o que devemos fazer, ser, comer, viver. Sabemos o que nos causa tristeza e nos destrói. Agora precisamos de treinamento para limpar, acordar, para nos transformar em seres humanos.

Precisamos reintegrar as ciências naturais e humanas, retornarmos ao empirismo na religião, filosofia e ciência, na busca da felicidade genuína, verdade e virtude.

Para combartermos o hedonismo com bondade amorosa,
A indiferença com a compaixão
A depressão com alegria e empatia
E o apego auto-centrado com equanimidade.

Eu espero que a próxima caixa de fotografias, seja de mim comigo mesma, plena e realizada.

UMA FLOR NO OUTONO

“O solo e o que tem o solo é como o espaço, primordial e espontaneamente presente. É como o sol, não tendo base para a escuridão da ignorância. É como um lótus, não-manchado pelas máculas. É como o ouro, que não muda da natureza da realidade em si. É como o oceano, sem movimento. É como um rio, sem interrupção. É como uma presença, sem encontro ou partida. É com o Monte Meru, sem se mover ou mudar.”

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