- Por que?
- Logo comigo?
- Que que eu fiz?
- Pago minhas contas, trabalho duro,
ajudo a quem posso,
atrapalho quando quero,
Por que comigo?
Imobilidade!
Isto não sou eu.
Eu corro, eu danço, eu vôo,
Eu não preciso de mais um engessamento.
A vizinha bem que merecia…
Aquele jogador …
aquele outro que desenhou o desenho da copa…
Mas por que eu?
Porque logo comigo?
Enquanto a negação insiste em se instalar,
as dores insistem em reafirmar
que a entrega foi feita com sucesso.
O desespero chegou com choro copioso, mimado, mas nao deu muito ibope.
A incerteza apareceu, mas saiu rápido.
A alegria sentou-se à minha frente, esperando próximas instruções.
E a negação mandava muito:
- Imóvel. Dependente. Infantilizada.
Enquanto a dor enviava twitters de certeza:
Era comigo.
É comigo.
Sentada na poltrona,
encaro as duas:
A negação e a dor:
Duas forças moradoras em mim
Duas mandonas.
Duas má donas de mim.
Duas oportunidades.
Uma de fé, outra do bem.
Quando acidentes/mortes/tragédias nos ocorrem, a solidariedade está sempre ao lado. Energias afins, as visitas, os mimos, o “-vai passar” sempre está presente no olhar de quem vê um acidentado.
Talvez por que ofende demais a beleza humana.
Talvez por que o outro assista a própria tragédia através da dor alheia,
Talvez porque o sofrimento nos aproxime e finalmente nos conecta como seres humanos
Talvez porque a compaixão nao encontre espaço para se expressar senão assim,
Talvez por sejamos assim mesmo:
Ao nos debater lutando contra a solidão,
mais presos ficamos em sua rede.
Solidão e Solidariedade.
Dor e Negação.
Muitas dúvidas, Ó céus…
Um mar de incertezas, de achismos terceirizados:
- Até que foi bom pra você, agora vê se pára!
- ?
Como se pára um rio caudaloso, vibrante, rápido?
Para que parar um tufão, um furacão?
Como pedir para uma águia voar mais devagar?
Uma tigresa jamais será uma gata.
Mesmo que se pareçam.
Os achistas profissionais tem explicações comoventes:
- Equilíbrio metafisico, longevidade assegurada, paz de criança dormindo… e assim empurram o acidente para perspectiva que conseguem aceitar, entender, conviver:
- Um acidente bom. – Uma fratura boa.
Eu quero pacificar a negação.
Não eliminá-la.
Ela existe, assim como a dor, assim como o céu e o mar, o tufão, a águia, a tigresa e a gata.
Cada um na sua glória e escuridão.
Em sua forma preciosa de experimentar a vida,
Como a música em seus diversos humores.
Para ouvidos bachnianos e para corações maria-betânicos.
Músicas para diferentes almas.
E coexistem.
E não se anulam.
E ai, ai, se completam…
…
- Mas por que logo comigo?
- Bem que poderia ter acontecido com tantos …
- (eu sozinha tenho uma lista que caberia direitinho na minha agenda do celular)
Pensando melhor…
Estou começando a descobrir que esta oportunidade é minha, Tafarel!


