Sua santidade, o Dalai Lama

O que você faria se um estranho invadisse a sua casa, separasse sua família, e quando você estivesse morando de favor na casa de outra pessoa, tivesse que ainda ouvir que o invasor tem lá os seus motivos?

Eu conheço uma pessoa que viveu isto e ainda ganhou o Prêmio Nobel da Paz, espalhou seu bom humor pelo planeta e é uma das figuras mais pops que o mundo moderno conheceu.

Para te falar a verdade a situação dele ainda não mudou. Continua sem-país, sem língua oficial. Mas a família aumentou. Cada parte do mundo tem alguém recém iniciado na filosofia budista, e a cada dia chegam mais pessoas.

Pude comprovar este crescimento primeiro na coletiva de imprensa: Correspondente de agências de notícias, misturado com jornalista de celebridades, misturado com editor de revista de moda, misturado com as televisões bem populares, misturados com fotógrafos de jornais cult, misturado com colunista de tecnologia. Todos ali representando bem seus veículos, mas ainda seres humanos querendo alguma coisa, uma imagem, uma palavra, um tiauzinho, um Tashi Delek de Sua Santidade o Dalai Lama aqui no Brasil, pela terceira vez.

O que ele veio fazer aqui?
A resposta não poderia ser mais feliz: “- Vim ao Brasil, porque fui convidado”.

No ano de 2001 fui passar três meses na India e vivi um pouco da realidade dos tibetanos exilados em Mc Leod Ganj. São pobrezinhos, vivendo dentro de uma realidade tão absurda que beira ao improvável. E são lindos.

Naquela época, desejei muito que todos tivessem a mesma sorte que eu, desejei que um dia pudesse haver um encontro aqui nas terras brasileiras com esta personificação da esperança.

Desejo realizado.

5 anos depois, três mil brasileiros vão ao encontro do Dalai Lama no Templo Zu-Lai, aqui em São Paulo. Um dia lindo, abençoado por um sol de Abril e criancinhas de um coral chamado filhos de Buda, entoam um welcome Dalai Lama, que é de chorar.
Tenho certeza que aquelas três mil pessoas tem seus livros, acompanham sua trajetória, seus escritos, mas estavam lá buscando alguma coisa, uma imagem, uma palavra, um tiauzinho, um Tashi Delek de Sua Santidade. Lindo.
Eis o triunfo da Esperança!

Sentado em uma cadeira confortável, e com um inglês tibetânico, traduzido por duas até três pessoas, seus ensinamentos voam através do microfone e atingem cada um, inclusive aqueles que foram até lá e compraram o ingresso para vê-lo através de um telão.
Sim, no templo Zu-lai havia uma grande sala com uma grande tela e muitas pessoas pagaram para assistir dali mesmo, o Dalai. (Não sei se tiveram acesso à presença física, acho que não) porque um mestre de cerimônia muito educado, lembrava aos fiéis, sobre a cor da pulseirinha e os lugares determinados por ela. Olha a esperança triunfando mais uma vez…. Ir até o Templo e assiti-lo através do telão era uma experiência marcante.
E houve um momento quando uma moça, láaaaa da arquibancada, gritando, dirigiu-se ao Dalai Lama, e pediu para meditarmos todos juntos. Só um pouquinho. Ele aceitou e nós, três mil pessoas ficamos em silêncio por um bom tempo meditando. Imagina, um dos momentos mais fortes do encontro não foram as suas palavras, sempre muito sábias e divertidas, mas o seu silêncio.

É ou não é a cara da Esperança?

Em algum momento me desliguei da cena e observei aquele templo, tinindo de novo, igualzinho aos milhares na India. Eram muito parecidos . Aquelas estátuas com cara de gente brava, uma monja chamada Sinceridade, pode? recebendo a todos, váááááários monges e Lamas, sentados ao pé do Dalai Lama, um adolescente brasileiro com vestes de tchuba passou por mim, igualzinho à viagem a India. Tava tudo lá. Até o chazinho de jasmim era servido para todos. Nem se eu tivesse escrito pro universo eu teria encontrado um cenário tão parecido, tão abençoado, tão alto astral como aqueles brasileiros budistas buscando finalmente em seu Professor: uma imagem, uma palavra, um tiauzinho, um Tashi Delek. E que Ele distribui generosamente. Trata-nos com família, fica muito a vontade e explica mais uma vez, pela enésima vez, a vacuidade, a natureza da mente, a impermanência. E dá uns puxões de orelha:
– Não se entreguem a nenhuma filosofia, testem, experimentem, pratiquem….eu sou um ser humano como vocês…

Difícil de acreditar nesta última frase, mas também eu gosto de pensar que tanto ele, como eu e você, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana.

De que outra forma a Esperança triunfaria?




Mas… O que nos faz sair de casa, faltar ao trabalho, para ir vê-lo?

O que há de novo, concretamente, que nos mobiliza tanto para ir ao seu encontro?
Uma imagem muito forte chega. A de outra monja, americana, com seu português americânico me ensinou um dia:
” – Buscamos uma imagem, uma palavra, um tiauzinho, um Tashi Delek porque isto provoca dentro de nós uma cachoeira de bioquímica das boas:
adrenalina, a endorfina a dopamina e a oxitocina são as responsáveis pela alta energia, bem estar, felicidade e amor. Ativa a glândula timo reforçando nosso sistema imunológico, além de ser uma delícia.” (leia a materia sobre biopsicologia aqui mesmo no Cosmonauta)

Aí lembrei daquela cena do filme Cidade dos Anjos, quando eles correm para a praia, no pôr do sol e se reconectam.

Somos ou não somos seres espirituais?

Mas voltando para a explicação científica deste encontro, os nossos Chakras operam através dos plexos físicos, e manifestam esta energia através de suas glândulas endócrinas correspondentes.

Esta é uma explicação científica.
Aceita e assimilada.
Mas sinceramente dá para ficar somente com esta resposta?

Por isto no outro dia, Dalai Lama foi ter com os nossos médicos-cientistas. Uma conversa sobre espiritualidade e ciência.
Quem já não olhou profundamente nos olhos de um médico, em busca de amparo, consolo, solidariedade, compaixão, e encontrou somente uma impecável e perfeita descrição técnica da doença acrescido de uma lista interminável de remédios?
Quem sabe o Dalai Lama não consiga despertar em nossos médicos uma nova consciência, um novo foco: tratar a saúde, não a doença.

O resultado deste encontro você encontra nos jornais, qualquer um.
Graças a Deus!

Antigamente eu teria que escrever: o resultado deste Encontro você encontra nas revistas científicas ou nos veículos alternativos.
Perceba como tudo isto está mudando. E rápido. O caderno Link de Tecnologia do Estadão tem matéria com o Dalai, assim como a revista Época tem a Susan Andrews como colunista. Está muito fácil.

Alternativos hoje são os outros.

E pensando sobre nossa mobilização, (eu saí de Ilhabela), chega uma música apresentada exatamente um dia antes de escrever este artigo por uma grande amiga: A sincronicidade está cada dia mais deslumbrante!

São Paulo é a cidade dos exageros, dos contrastes, da multidão, dos kilômetros de transito, de milhões de pessoas, de uma catedral gigante..

João e Marina, um casal de idade 70-80, saem de casa, pegam o ônibus ali na praça da Lins de Vasconcelos em direção a Sé. Nesta megalópole de tudo acontecendo ao mesmo tempo agora, ele pega na mão dela, e juntos caminham no meio da multidão em direção a Catedral.
Eles não vão entrar.

O passo dos dois, lento para o acontecimento na região central, os atrasa e eles ficam na praça mesmo, no meio daquele mundaréu de gente, imprensa, famosos, indigentes, ambulantes, polícia, assistindo pelo telão, o que provavelmente já vivenciaram durante toda a extensão da vida deles:
A esperança triunfando.

Tanta história, tanto sofrimento, quanta superação: A Tradição Afro-brasileira abraça a Judaica enquanto a Católica cobre a Budista com um manto, enquanto cânticos beneditinos ecoam para um público abençoado. Na cidade que não pára, o casal comovido agradece aos céus por ter tido ainda a oportunidade de vivenciar mais uma celebração. E levam para o ônibus, de volta para casa a imagem, a palavra e o Tashi Delek daquele que eles vêem pela primeira vez na vida. O tiauzinho não deu.

Eles chegaram depois, mas jamais atrasados.

Que a oportunidade deste encontro seja uma inspiração.

Nesse exato momento
possam nem mesmo os nomes
doença, fome, guerra e sofrimento
ser ouvidos pelas pessoas e nações da Terra.
Mas possam sim, sua conduta moral, mérito,
riqueza e prosperidade crescer e
possam a suprema bem-aventurança
e bem estar sempre surgir para elas.

Fotos: Jonas Tucci

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Cobertura de Rodolfo Tucci

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